O livro O Rio Tejo: economia, cultura e meio ambiente é o resultado da colaboração entre investigadores e estudiosos sobre o Rio Tejo em ambos os lados da fronteira luso-espanhola. Surge na sequência da conclusão do 2º Fórum Ibérico do Tejo, reunião transfronteiriça realizada em Vila Franca de Xira, em 19 e 20 de Março de 2016, em que cada um teve a oportunidade de aprender sobre a problemática da bacia do Tejo no respectivo país vizinho.

Cientes de que a riqueza e os problemas da bacia hidrográfica não podem ser vistos a partir de uma única perspectiva, neste livro apresentam-se vários artigos que abordam o rio a partir de uma abordagem cultural e social, económica e, é claro, a partir do respeito necessário pelo meio-ambiente.

Da parte espanhola, este livro começa com um artigo de Beatriz Larraz Iribas, da Universidade de Castilla-La Mancha, no qual se faz uma revisão dos principais problemas que afectam a bacia na demarcação espanhola, como a elevada poluição do rio no seu eixo central, a escassez de caudal na cabeceira como consequência da transferência de água para o Levante espanhol, e o excesso de regulação em toda a bacia, causador de uma total ausência do tão necessário regime de caudais.

Em seguida Enrique San Martin Gonzalez, da Universidade Nacional de Educação à Distância, de Madrid, apresenta-nos a necessidade de realizar uma análise de custo-benefício das infra-estruturas hídricas, particularmente no caso dos transvases, através da qual se possa avaliar a adequação da sua implementação. Porque se o que quer é concretizar um desenvolvimento sustentável, uma vez que estas obras não obtêm um saldo positivo nem do ponto de vista social nem do ponto de vista do meio-ambiente, nem tão-pouco do ponto de vista económico, não seria desejável realizá-las.

Pela sua parte, a directora técnica da Fundação Nova Cultura da Água, Julia Martínez Pérez, aborda a questão sensível do uso da água na bacia do Segura, no Levante espanhol, destacando a existência de uma espiral de insustentabilidade causada pelo desequilíbrio entre a disponibilidade de água e usos de consumo, como a irrigação. No seu artigo, evidencia que essa situação insustentável compromete seriamente as funções ambientais da água, bem como as suas utilizações sociais e económicas.

Pondo de lado as questões ambientais e económicas, Angel Monterrúbio Pérez, da Universidade de Castilla-La Mancha (polo de Talavera de la Reina), envolve-nos de seguida no mundo da cultura, ao aprofundar os laços culturais que o Rio Tejo se encarregou de tecer nos dois lados da fronteira, com o passar dos anos. Ele escreve no seu artigo que as regiões do Ribatejo em Portugal e as terras espanholas de Talavera têm características físicas que condicionaram a sua evolução histórica, económica e social, características distintivas nas quais o rio Tejo tem sido tão importante papel importante que tem exercido e exerce o rio Tejo como um nexo de união cultural entre Portugal e Espanha.

No seu artigo valoriza os aspectos culturais que fazem parte indelével da cultura dos nossos povos. Da parte portuguesa, Pedro Teiga, investigador da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e director executivo da empresa Engenho e Rio, Unipessoal Lda., propõe um conjunto de intervenções para a reabilitação das margens do Tejo na demarcação portuguesa, com a aplicação de técnicas de engenharia natural a fim de estabilizar e reabilitar essas margens e canais contando com o envolvimento da população e dos decisores. António Carmona Rodrigues, da Universidade Nova de Lisboa, aponta os problemas que o Tejo apresenta em Portugal, tais como a necessidade de uma avaliação da dinâmica de sedimentação no rio Tejo, o avanço da cunha salina no estuário, o poluição excessiva ou a necessidade de uma monitorização de caudais. Muitos deles são derivados da gestão levada a cabo em Espanha, uma vez que tudo o que se faz a montante tem consequências a jusante, embora também reconheça deficiências na gestão da demarcação portuguesa.

Carlos Alberto Cupeto, da Universidade de Évora, transmite-nos a necessidade de acreditar e defender uma Tejo vivo e vivido entre todos os cidadãos, por meio de acções pessoais e conjuntas. Consciente das enormes pressões a que estão sujeitos o rio e os ecossistemas em geral, como resultado do modo de vida predominante na sociedade, apela-nos para preservar e valorar o rio, lembrando-nos que um rio é um sistema vivo que cria e sustenta a vida.

Conta-se também neste livro com a participação de José Bastos Saldanha, contra-almirante da associação Marinha do Tejo que escreve sobre o projeto para promover a candidatura para inscrever a Paisagem Cultural do Tejo Português na Lista do Património Mundial da UNESCO, trabalhando para refazer a parceria transnacional e retomar o projeto ibérico. Este tem como objectivo incorporar a paisagem cultural como conceito integrador, diverso e inclusivo, no qual a água seja o elo agregador.

O autor e Arquitecto Fernando Simões Dias acompanhou durante anos o projecto de candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial, fez parte do seu núcleo dinamizador desde o início e construiu este projecto, que agora se publica, sempre a trabalhar graciosamente, suportando longas e fatigantes deslocações desde a sua região natal em Aveiro, até ao Tejo – desde Póvoa de Santa Iria até Constância – e ao Sado. Durante anos, repete‑se, porque as vicissitudes foram muitas.

Apoiámo‑lo sempre e acompanhámo‑lo em praticamente todas as suas deslocações até aos locais onde houvesse embarcações tradicionais de madeira que valessem a pena uma primeira observação e, se fosse o caso, a tomada decisão de incluir o seu estudo no conjunto dos levantamentos de todos os tipos de embarcações do Tejo, excluindo as do seu Grande Estuário. Por isso, daqui resultou um abrangente trabalho de levantamento de todos os tipos de embarcações de madeira existentes nesses rios, e não só os de um determinado tipo.

O autor deslocou‑se a todos os lugares possíveis nos rios Tejo e Sado para fazer um levantamento minucioso da arquitectura de cada tipo diferente de embarcação tradicional de madeira que encontrou. A todas desenhou e construiu modelos à escala de 1:10 com uma meticulosidade inultrapassável. Costumamos dizer que, se houver necessidade de fazer réplicas exactas das embarcações caracterizadas, à escala real, podem ser feitas agora ou em qualquer momento do futuro próximo ou longínquo, para sempre.

O seu rigor é tanto, e o seu prestígio é de tal forma reconhecido, que um dos seus desenhos de um modelo de bateira foi seleccionado para carimbo oficial de 1º Dia dos CTT, neste caso o que assinalou o Dia Nacional do Mar em 16 de Novembro de 2011.

Por estas razões, e muitas outras há, o seu contributo para a salvaguarda deste tão ameaçado património nacional pode ser considerado exemplar, porque foi feito por iniciativa própria ‑ apoiado por voluntários ‑, e porque o seu legado é um acontecimento de relevo para a cultura nacional, não exageramos ao afirmá‑lo e ao registá‑lo aqui. Um outro facto relevante é o que emerge da perseverança do autor em chegar ao fim da sua obra, enfrentando grandes e desnecessárias adversidades.


Numa altura em que no País se necessita de pessoas qualificadas que executem trabalhos de valor acrescentado, é obrigatório aqui registar que este trabalho obedece a todos os requisitos de alto valor acrescentado. Não foi apoiado oficialmente como era obrigatório, mas isso só realça ainda mais o mérito e a extraordinária valia e dimensão técnica e humana do autor.

Dizemos dimensão humana porque o Sr. Arquitecto Fernando Simões Dias pertence a uma velha Escola, em que os compromissos assumidos são para serem cumpridos, bastando para tal a palavra e um sincero aperto de mão, e foi isso que se cumpriu com esta relevante obra. Tal facto deve ser igualmente registado, porque todo o trabalho decorreu numa época em que a dimensão ética desapareceu, ou querem fazê‑la desaparecer, nas relações humanas, académicas e profissionais.

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